Wednesday, November 09, 2011

Um outro outubro

"Suas paredes tem ouvidos, seus ouvidos tem paredes". A História sempre aparece quando menos se espera dela. Foi num Maio de 1968 que estudantes de Nanterre foram presos por protestar contra a velha educação francesa. Nos dias seguintes, o Quartier Latin incendiou. Estudantes das outras universidades saíram em defesa dos colegas. Até a velha Sorbonne foi ocupada. Para se proteger das tropas oficiais do presidente De Gaulle ( aquele que Churchill achava ser um Hitler francês), os estudantes armaram barricadas em volta dos campii. Imagine se algo semelhante ocorressse no Brasil. Os conservadores verteriam sangue pelas narinas. Tudo é tão parecido.
No dia 10 de maio veio o massacre: mais de 400 estudantes presos e espancados pelos agentes de segurança. O inesperado acontece. Nos dias seguintes muitos estudantes que criticavam seus colegas decidem apoiar as barricadas. Em 3 dias, mais de 15 mil universitários ocupam as ruas de Paris. Começa, simultaneamente , uma greve operária em apoio aos estudantes mas também de críticas ao capitalismo, ao desemprego, aos baixos salários pagos na França e ao precário sistema social do país. 30 mil grevistas em 13 de maio, 120 mil, 500 mil, 1 milhão até os 8 milhões de grevsitas em 17 de maio. A maior greve da história da humanidade. O mundo parou.
Não havia lideranças em Paris. Não havia condução do movimento por partidos ou sindicatos. Cooperação, democracia direta e uma esquerda independente pixavam muros com frases como a que inicia este texto ( crime ambiental segundo os donos do poder atuais). Um mundo repleto de ideais. Muitas vozes dissonantes. Sem burocracias partidárias, sem discursos de ordem sindicais, apenas uma grande vontade de mudar o mundo com um pouco mais de imaginação.
Detestavam a ideia de um ensino tecnocrático existente apenas para formar novos quadros para o gerenciamento do Estado burguês. Nenhuma novidade. Não queriam inclusão social, queriam a derrubada do sistema. Um último lampejo revolucionário na Europa. Não aceitavam uma escola que apenas reproduzia e treinava homens para o futuro do capitalismo. Queriam ir além. Muito adiante também do socialismo igualmente burocrático. A liberdade tem hora e é agora. Queriam se libertar das amarras da família burguesa. Desconfiavam de alguém com mais de 30. Desacreditavam o poder tradicional, seja ele de esquerda ou direita. Estavam na extrema esquerda da esquerda.
USP. Brasil. Outubro de 2011. Os estudantes protestam contra a prisão de colegas. Não discutem em nenhum momento a legalidade da mesma. Eles pensam criticamente e agem. Dias após eles enfrentam o poder vigente, seja ele dentro e fora da Universidade. Pedem o fim do convênio USP-PM, por arbitrário e anti-democrático. Denunciam a manobra do DCE e cancelam a manobra assembleista. Criticam a partidarização dos órgãos representantes dos discentes. São de extrema esquerda, estão além das siglas tradicionais que povoam as Universidades.
Pela 3ª vez em cinco anos ocupam a reitoria. Não é no mínimo estranho tantas ocupações. Corajosos, são acusados de criminosos por toda a mídia ( até a dita de esquerda). Quem os salvou foram os blogs 'sujos'. Filhinhos de papai. O mesmo argumento utilizado em paris 43 anos atrás. Eles precisam de um motivo, uma ditadura para lutar contra. Quer motivo mais belo do que este, lutar para transformar o mundo apenas por discordar de sua atual situação. Fácil seria lutar com motivos. Difícil é refletir que a sociedade atual ainda sequer se aproxima de uma melhoria de qualidade de vida para mais da metade de seus habitantes. Ou você tem coragem de dizer para as ruas: que mundo fantástico! Um mundo que acrescentou mais um problema às nossas preocupações: a desastre ambiental.
Eles tem o divino poder de raciocinar de forma crítica e isto é conhecimento. Conhecimento não é calcular pontes e viadutos. Uma calculadora ou um autista o fazem. São capazes de dar sua vida por um ideal. E você daria o que para sair da mesmice? Eles não estão sentados com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. Eu sei que você não queria isso pra ti também, mas os filhos, a família, o trabalho o impedem. Tudo bem, mas reconheça, a razão está com eles. Olhe para estas palavras em silêncio, reflita sobre sua existência, compartilhe dos sonhos, mesmo que calado. Ponha um sorriso nessa sua alma que já foi assim um dia. Tire a roupa das convenções sociais por um instante e reveja suas posições.
Eles são arruaceiros e sonham com o impossível. Não se derrubam árvores frondosas com o sopro e sim com a força dos furacões. O crime deles é desafiar uma universidade anti-democrática, um reitor escolhido de forma indireta e que, mesmo derrotado, foi indicado pelo governador do Estado. Não é pelo direito de fumar maconha, mas mesmo que fosse isso, não há crime em defender ideias. Eles não querem uma polícia que a pretexto de combater o crime, recebe ordens superiores para barrar a luta política. Eles não querem viver numa sociedade vigiada. fascista. Em que todos são suspeitos.
Querem sim viver em segurança. mas de forma democrática e republicana. Não querem soldados a paisana infiltrados no campus para ' averiguar' suspeitos. Não querem a Stasi paulista. Querem uma imprensa livre. Não como a jornalista do SBT que chamava o tempo todo os alunos de 'maconheiros'. Isso não é jornalismo é agressão verbal. Acreditam numa outra sociedade possível. Duvidam das verdades absolutas, algo essencial ao pensamento científico. Defendem a liberdade de relacionamentos no campus ( a PM vem achincalhando casais de homossexuais).
Agora 73 deles estão presos arbitrariamente. No Brasil criminalizam-se os movimentos sociais. Estão trancafiados dentro de um ônibus há mais de 18 horas. Homens e mulheres. Quantos minutos precisam roubar da sua vida para ser considerado uma prisão bárbara? Tratamento indigno. Como respeitar uma governo que fornece essa forma de segurança pública. As assembleias que nunca passaram de mil estudantes, hoje passaram dos 3 mil. Crescerão? Um mês depois das barricadas a direita tem a maior vitória de sua História na França. Repetiremos a tragédia por aqui? Que os gritos dos jovens abafem o perigo.

4 comentários:

Marina Barusso said...

Sabia que ao entrar aqui encontraria palavras inteligentes!
Depois de tanto tempo, sempre me recordo desse blog!
Não sei se ainda lembra de mim!
Um beijo
Marina Barusso - tatuí

Camila Couto said...

Seu blog é muito bem feito. Parabéns!

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Isso é ótimo para ouvir! Espero que muitas pessoas podem ler este artigo.

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